2 de maio de 2009

Uma flor na Redentor

Por André Luiz Barros, Jornal do Brasil (02/05/2009)

“O jardineiro conversava com as flores e elas se habituaram ao diálogo.”
O poeta Carlos Drummond de Andrade, autor desses versos, estava certo. Em Ipanema, moradores levaram a poesia a sério e adotaram uma alternativa para deixar as calçadas floridas e interagir com a natureza, criando um ar de primavera o ano todo. Uma rua em especial está ganhando aromas e cores por conta dessa iniciativa.
Há dois anos, a associação comercial batizada de Quadrilátero do Charme em Ipanema, formada por lojistas das redondezas das ruas Anibal de Mendonça, Joana Angélica e avenidas Vieira Souto e Epitácio Pessoa, fez o plantio de 2100 mudas de orquídeas em 350 árvores das proximidades de seus restaurantes e bares. Hoje, o principal ponto para vê-las é a menos badalada Rua Redentor.
O projeto teve adesão dos moradores. Hoje, os jardineiros são os próprios porteiros, que dividem o trabalho na recepção dos prédios com os cuidados dados às flores da rua. Com a chegada da primavera, em setembro, a Redentor deve ganhar um colorido especial e pode até ficar marcada pelas orquídeas, assim como a Rua Paissandu, no Flamengo, tornou-se famosa por suas monumentais palmeiras imperiais, que demarcavam o passeio da Família Real rumo à Praia do Flamengo.

Porteiros-jardineiros

Os porteiros João Santos e Joarez Távora, que trabalham na rua Redentor, acompanharam a colocação das plantas nos últimos anos. Algumas delas inclusive, eles mesmos que plantaram, a pedido de suas patroas.
– Nossas patroas costumam comprar as orquídeas para suas casas, e assim que as flores caem, elas nos pedem para colocá-las sobre as árvores – conta João.
Joarez também considera a idéia interessante e os cuidados com as flores já faz parte do seu cotidiano enquanto zelador.
– Eu mesmo coloco as plantas em cima das árvores. Uma vez por mês ponho um remédio para evitar pragas, e rego sempre – afirma o porteiro.
Segundo o biólogo José Ricardo Palmeiro, no entanto, o hábito de molhar as orquídeas demasiadamente pode prejudicar o desenvolvimento da planta.
– As orquídeas são flores da Mata Atlântica, que vivem da umidade do próprio meio ambiente. Regá-las frequentemente pode acabar encharcando a raiz do vegetal causando sua morte – diz Palmeiro.
O biólogo conta também que as orquídeas são plantas epífitas, ou seja, apenas utilizam outras árvores como suporte, não se nutrindo da seiva da árvore, como parasita.

Bem adaptadas

Além disso, elas se adaptam bem ao clima do Rio, e algumas vivem inclusive nas praias da cidade.
Ao contrário do que se pensa, essas flores são de fácil adaptação ao meio urbano, desde que não fiquem em exposição direta ao sol.
A floração ocorre durante todo o ano, dependendo da espécie. A moradora Sarah Cristina, 39 anos, mora há nove anos no bairro de Ipanema e, apesar de nunca ter plantado nenhuma orquídea na rua, é a favor da iniciativa.
– É demais caminhar pelas ruas e poder ir admirando lindas flores pelo caminho. O mais interessante é saber que meus vizinhos colaboram com a preservação da natureza, quem sabe não planto a minha essa semana - brinca a moradora.


25 de abril de 2009

Nesse mês o paradebate.blogspot.com completa um ano. E o site-projeto da aula de jornalismo digital que tive que construir para obtenção de grau na discplina na época de faculdade, hoje se transformou num hobby e num meio incrível de dividir minhas idéias e textos com meus amigos e internautas que curtem passear por aqui e ler textos diferentes que estigam o pensamento e a reflexão. Gostaria de agradecer a minha professora Larissa de Moraes pelo apoio e incentivo e a todos os visitantes do blog. Acreditem, ele é feito pra vocês. Se é possível viajar pela internet, alce voos maiores, viajando intelectualmente no paradebate. Críticas e sugestões são sempre vem vindas. Entre, debata, me bata se quiser, mas viaje.
paradebate.blogspot.com viagem inteligente na internet.

O grafite e a paisagem carioca

André Luiz Barros, Jornal do Brasil (publ. 26/04/2009)

O grafite já faz parte da paisagem carioca. Rostos, personali- dades, figuras fol- clóricas da cidade e a própria Zona Sul tornaram-se temas de uma exposição a céu aberto. Com spray, látex e criatividade, sua matéria-prima, esses artistas de rua transformaram o preconceito em reconhecimento. Hoje, até são convidados a pintar.
– O dono de uma oficina no Rio Comprido me chamou para pintar o portão. Ele entrou com o material e eu com a criatividade – conta Gustavo Figueiredo, morador do Leblon.
O paulista Tony de Marco é artista plástico e trabalha com grafite há cinco anos. Para ele, o contato com a rua é primordial.
– A rua foi uma maneira de eu conseguir bastante prática e experiência – comenta Tony.
Marginal, não
Engana-se quem considera o grafite uma arte marginal inventada nos guetos dos Estados Unidos. Ele surgiu muito antes, na terra do futurismo de Umberto Boccioni, a Itália, onde era usado pelos antigos romanos para divulgar suas leis e acontecimentos públicos. Assim que explodiu nos EUA, na década de 60, o grafite ganhou novos horizontes. Capturada pelo movimento negro em Nova Iorque, a arte urbana passou a dividir espaço com o breakdance e o rap, parte de uma ideologia, o hip-hop.
– No hip-hop, o grafite tomou novos rumos, foi além da cultura de rua, tornou-se uma linguagem que revolucionou o movimento artístico. Hoje, já está dentro das faculdades de belas artes – explica Alexandre Ferreira, mais conhecido como Afa, que dá aulas na Cufa (Central Única de Favelas). – As pessoas com quem trabalho não tiveram acesso à arte, que sempre foi privatizada. E se o povo não vai até a arte, a arte vai até ele.
– Uso cores vibrantes e uma imagem bastante figurativa. Costumo desenhar acerca de questões atuais da mídia – revela o professor de grafitagem.
Mas, afinal, quem arca com as despesas dos desenhos?
– Muitas vezes, os próprios artistas têm de bancar o material. Em troca, recebemos o olhar de nossos espectadores, que são aqueles que estão passando pela rua enquanto nossa arte estiver lá – comenta Afa.
Dos grafiteiros, no âmbito internacional, o mais famoso é Jean-Michel Basquiat, que, na década de 70, chamou a atenção da mídia nova-iorquina, principalmente pelas mensagens lúdicas que deixava nas paredes dos prédios abandonados na ilha de Manhattan. E se ídolos costumam fazer história, no caso da grafiteira Taíssa Camarotti, a Thati, a fã número um passou a ser a noiva.
Thati faz parte do grupo Facing the Gigant, formado há oito anos no Rio de Janeiro por cinco grafiteiros – quatro homens. E não é só no grupo que Thati é minoria feminina.
– As mulheres ainda são poucas no grafite – reconhece.
Segundo os grafiteiros, os espaços onde são feitas as grafitagens costumam estar abandonados. A subprefeitura da Zona Sul, no entanto, ressalta que, se tratando de lugares públicos, deve ser pedida uma autorização à prefeitura; em privados, ao proprietário.

11 de abril de 2009

No xilindró

De todas as minhas loucuras, por uma tenho um especial apreço. Uma ilegal que mexe com o lado mais sombrio e tortuoso do homem. A vontade de ser preso. O sentimento de aprisionado, de estar errado, e ter que ser julgado. Ficar na cadeia. Agarrado naquela grade suja em que apóiam as mãos assassinas e ladras.

Por um dia, apenas um dia, queria ser réu. Dividir cama com bandidos, canalhas filhos da puta que são os tumores malignos de toda sociedade. Sentir a violência viva, pulsando forte na respiração ofegante do malandro dormindo do meu lado.

Queria ser preso, num presídio qualquer da vida. Queria sangrar a fúria da impunidade que vive correndo atrás de seus salafrários. Queria vestir aquela roupinha, cor de cinza malvado e ter que entregar meus pertences contra a minha vontade ao Estado.

Queria sentir a dor da prisão. Sentir-me acoado atrás das grades, será que dá medo? Teria fome. Senão de comida, de vingança. Atrevida, com sede. Sentir o sabor amargo do café velho que servem naquele lugar, o café frio, o café preto desbotado. Tomar banho de sol e ver o astro rei se pôr quadrado.

Dos meus devaneios masoquistas esse é o mais doentio e insano. Queria estar lá por um dia., não mais que isso. Ser foragido, pego, preso, inerte, ferido, mansinho, mansinho, querendo fugir de mãos dadas com a loucura, aflita, insólita, perdida e sem rumo, minha única cúmplice, advogada do diabo. Meu maior álibe. Queria sentir como é abandonar um nome e ser chamado por um número.

E quando fosse ir no banheiro, de porta aberta, riscar com pedra minha irritação na parede rachada, suja e com cheiro de sangue. Do sangue forte derramado em vão. Da injustiça. Da punição. Dor. Saudades. Medo. Eu queria ser preso por um dia, ser criminoso, só para experimentar como é viver às custas das minhas próprias vítimas e sentir o gostinho quente e úmido da raiva e do arrependimento me vir nos lábios.

29 de março de 2009


Campanha "paradebate.blogspot.com" em defesa e divulgação do Estatuto do Idoso, contra os maus tratos aos idosos e engajamento numa luta à favor de uma melhor qualidade de vida aos vovôs e vovós do Brasil.

26 de março de 2009

Traumatismo mental


Sabe aqueles dias que você acorda e o sol está de cabeça pra baixo? Que você anda e parece estar pisando em gelatina? Ou sei lá.. sabe aqueles dias em que tudo parece está invertido, tipo um mosaico chileno? Pois é, nem eu.
Na verdade a primeira coisa que te vem à cabeça é. Estou trabalhando demais, sentindo coisas estranhas, fadiga, estafa muscular.. O que seria isso? - se questiona ao parceiro(a). Daí você cumpre suas tarefas, vai pra lá, volta pra cá, sua agenda está lotada, é muita coisa pra fazer, não é? Duvido que você não tenha pensado umas três vezes só hoje que comeu demais, que está gordo demais, acima do peso... e aquele pensamento mesquinho e irritante vai subindo pela coluna e nossa, chega em êxtase e desnorteado no cérebro. E as crianças, sempre têm uma perto de você, tem uma próxima agora não tem? Sempre tem! Elas surgem do chão e começam a gritar, a correr em volta de você querendo brincar. Vamos brincar! Vamos brincar! E pasmem, nem elas mesmas sabem de que. De repente, a comida que tava no microondas esfriou, mas você ta com fome. Que fome! Imagina aquela deliciosa lasanha de presunto à bolonhesa com um copo duplo de vidro transparente de refrigerante, muito, muito gelado.
O pior é não ter o que fazer ficar vagando pela net à deriva, em busca de absolutamente nada, dando F5 no computador pra ver se a gatinha entrou na net ou se o namorado daquela moça que tu está de olho respondeu ao scrap dele? Vai dizer que tu nunca fez isso? Duvidoo.. aliás eu duvido também que suas pernas não estão coçando debaixo da mesa do computador, sempre tem mosquitos escondidos ali e o pior.. você sempre Poe no carrinho nas compras de mês no Carrefour uns três vidros de Baygon e outros dois de anti-repelente OFF. A merda é que esses produtos estão caros.. a crise ta aí e as coisas não param de ficar caras.. a carne? O feijão? E o dinheiro ta curto né.. as contas não param de chegar, os correios nunca erram o seu endereço, já as Americanas.com sempre deixam o livro que você comprou no vizinho, só porque você esqueceu de colocar fundos no campo – complemento – do formulário de compra. Contas, contas, quantas contas.. pior que os bancos também sempre estão cheios, lotados, mas você é capaz de responder isso? Porque as pessoas freqüentam tanto os bancos? Será que elas estão de bob em casa, e daí tem um insight. PLIN! Vou ao banco tirar um estrato! Poww e quando acaba o papel na sua vez? Aíi nem fala, a velhinha amistosa que você acabou de ajudar na fila foi a ultima a mexer na maquina e tirou tanto estrato e pagou tanta conta que acabou com o papel exatamente na sua vez. Que velha fdp! Aliás, velhinho é complicado.. você os ajuda na rua, mas pode reparar sempre tem um numa quadrilha e te faz de idiota querendo te assaltar! Sempre aparece isso na TV.
Tirando isso, nada melhor que sair com a namorada né? Bom isso quando ela não te dá um bolo ou pior, você leva ela pro cinema a pipoca cai no chão dois minutos depois que você comprou o pacote e cinco minutos antes de você descobrir que os ingressos pro filme que vocês se programaram um mês pra ver acabou. Faça o seguinte: leve ela ao Mc Donald´s, enfrente aquela fila firme e forte, pague 14,00 reais num sanduíche.. acredite, ela vai pedir um Big Mac especial, demora mais sabe, e quando ela abrir, vai ter o picles.. sim a anta da atendente sempre esquece de gritar É BIG GRILLL!
Aaaaaaa meu querido, fique tranqüilo, amanhã é um novo dia, você vai acordar cedinho pra ir trabalhar, vai esquecer a carteira em casa, ir de carro pro centro da cidade pegar um engarrafamento do kcte, ou melhor você vai de trem ou metro.. cheio demais! ÔO delícia! Ta calor né? Muito quente mesmo. Calma, calma.. eu sou otimista. Sai da net e vai ler aquele livro que você tem que ler, aquele mesmo que seu professor falou que vai cair na prova, à prova é discursiva, é uma questão só hein.. to avisando. Não se esqueça coma muito, mas se alimente você precisa de energia.
Duvido que você não sentiu pelo menos uma das coisas que eu narrei acima. Ou você se lembrou de algo e se reportou aquela situação chata e ficou angustiado ou você sentiu mesmo o que eu estava falando. Eu não sou chato. Só quis te irritar e mostrar como a mente humana é burra e facilmente manipulada.

22 de março de 2009


Campanha paradebate.blogspot.com CONTRA A PEDOFILIA!!! Denuncie já, através do Disque-Denúncia: 2253-1177

Minha Lapa


Ahh a Lapa.. o bairro mais boemio do Rio.. regado a história, destilado, seco, quente e frio. Desenhado por botequins, bares, casas de espetáculo, pleno em cultura, de artista e oráculo. Cheio, muito cheio, de mauricinhos e patricinhas gatas, viados, vadias, mulatas. A burguesia insana freqüenta o lugar e joga o resto de seu banquete a elite faminta que vagueia sem lar. Perdida sem rumo pelas ruas ladrilhadas e firma residência na esquina ou nas calçadas. A Lapa cheira a malandragem, a negritude preta e a juventude rulez, às cédulas de real e ao troco da vez. Aquela gente toda rodando perdida, chegando de copa do táxi ou do subúrbio do busão, com sede de entretenimento, de gozar a vida no fervo do bem-bom .
Os casarões antigos, frágeis, mal conservados ajudam a criar o que há de melhor na Lapa: a aliança do antigo com o contemporâneo, do velho e o novo, da criança, do camelô e do idoso. O som é meio confuso, a música ritmada consegue ao travesti agradar ecoa junto com a batida forte e seca do taco na bola preta da mesa de sinuca do bar. A tia do cachorro quente irrequieta vende feliz aquele bom pão com linquiça frita que junto com a cachaça batida e encorpada do tio da barraca da frente dá aquela queimada no estômago da galera farrista, queimada dura, dolorosa, masoquista. Dor.. que dor gostosinha e incomoda.. a dor que garante ao faminto sedento a noitada serena e louca vir a tona.
A praça meio cinza meio delinqüente, une as incertezas do futuro da cidade, cheia, repleta, rica e carente, bonita, entupida, lotada de zé ruelas que esbanjam boemia e vaidade. Os arcos pintados de um imundo branco, exala uma fragancia mixada de jean poul gutier, mijo e maconha, desperta a ânsia da moça que calça tamanco e mata o peguete que a chamou pra sair de vergonha. O cheiro da Lapa.. único, fede ao odor forte e embriagante do cotidiano, da noite vulgar e apimentada no centro da cidade, do estilo de vida conturbado e urbano, da vida sem preconceitos e vivida com intensidade.
No cantinho a menina pobre vende bolin balls e faz da voz um auto falante, o vigário passeia em volta da igreja, na mesma calçada que o pastor prega sozinho a palavra cristã protestante. A tia Zefa canta seu ponto pro cabloco e vende suas guias de contas na barraquinha sem teto. Sentir o calor humano, aquela cultura popular, marginal e erudita, lúdica, nos traz arrepio, afinidade e afeto. É possível tocar nos exlcuidos com a mão, aperto a agitação do lugar com os dedos, sinto na pele a energia acumulada daquelas vielas, sua história, seu anseios e medos. Piso em terra firme e esburacada feliz, cada buraco dali tem uma história, uma vida própria, passo cansado, abatido, tampando o nariz mas dando a mão a palmatória. O pecado, a felicidade, a harmonia, o equilíbrio mais desequilibrado de todos é o que pode ser encontrado ali. A puta de salto alto procura um cliente, o honda civic até pára contente, mas pra deixar o turista inglês que poupudo salta do carro pra consumir a carne brasileira, encorpada, polpuda, à baiana, à mineira..
A menina grita, os trilhos do bonde de santa teresa enferrujados pingam como um conta gotas, gotas da chuva do dia anterior. Gotas.. de cerveja e de cuspe com restinhos do gelo que vasa do isopor. A visão é linda. Aquela confusão de pessoas, de sotaques, de batidas, de ritmos e tribos, de gente, de povão, de burguesia acanhada e de lixo no chão. Que brega! Que chick! Olhar aquela gente reunida, euforica, suada, bêbada e embriagada naquela ruazinha estreita, me faz ver que a vida vale a pena e usufruir dos cinco sentidos é uma dádiva brilhante e perfeita. Salto agulha, tennis, chinelo... a calçada suja grita de alegria, cheia de latinhas e guardanapos usados, melecados de ketchup e mostarda Sadia. Entre uma fenda vejo em ponto de ataque o tímido e atordoado cansaço, escondido, anestesiado com o cachimbo de craque, consequencia da juventude vítima de fraqueza e fracasso. A sujeira linda, encroada no cimento garante aquela visão deslumbrante de coisa usada, de manhã o sol disfarça o mal tempo de noite a lua seca a pele suada. O território onde pisam piranhas, empresários e juventude transviada, consegue dividir espaço entre católico, crente e ateu, faz a classe média blindada sair de seus condomínios e se misturar com a tia baiana e eu. O território povoado e sem dono, satisfaz a todas as taras, desejos e fetiches de uma forma bem homogênea e peculiar, ainda que vítima do pouco caso do Estado e abandono, caminha firme com sua história a brilhar. O povo corta as ruas da cidade, as avenidas expressas do Rio de Janeiro.. a Perimetral, a Av Brasil, a Linha Vermelha.. sem medo. Inconseqüente, assíduo todos os finais de semana, traz no bolso as chaves de casa, a identidade e uma banana. O importante é estar lá, e ser mais um naquele amontoado de gente, contaminada pela insônia, com sorriso largo no rosto, bronzeada da praia e contente.

12 de fevereiro de 2009

É SOM SÓ DE PRETO? SÓ DE FAVELADO?


O funk melody já exaltava no início da década de 90,que “o funk não é modismo, é uma necessidade..." Sou carioca, funkeiro, universitário, branco. Freqüentador ascíduo dos bailes da Furacão 2000 e de algumas favelas. Não sou bandido, homicida, ladrão, traficante ou usuário de drogas. Sou carioca. O funk é meu único vício.
Um binômio retrata bem o funk: o amor e o ódio. Ou ele é exaltado e curtido das vielas do Chapéu-Mangueira aos ap´s de luxo de Copacabana ou ele é criticado e renegado pela mídia e pelos "cú doces" de plantão. Bem como o samba, assim que surgiu no Rio, o funk é tido como ritmo de malandro, de bandido. E hoje no que o samba se transformou: em patrimônio cultural, em grife, em representação da identidade nacional dentro e fora do país. Brasil sem samba é México sem novelas dramáticas de Marias do Bairro, Marias Mercedes, Maria Desconsoladas e Marcelos Augustos, é Austrália sem os pulinhos do Canguru, Dineylandia sem o casal Mickey e Minnie.
Em contrapartida aqui dentro de nosso país, não agüento, mas é realidade, uns e outros cismam em botar pra baixo nossa cultura. Funk é cultura de morro, de favelado, de pobre, de quem não sabe sequer o português, de preto, de ignorante, sim quem diz isso tem total razão. Mas desde quando nosso país é formado por intelectuais, ricos, que usufrui de uma justa distribuição de renda? Por outro lado, não entendo por que o movimento funk sofre tamanha deserção. Afinal de contas o forró e o axé baiano, por exemplo, fazem tantas menções sexuais quanto o funk carioca, talvez de forma menos explícita e mais ambígua. Mas segura o tchan pra mim é igual a "segura a piroca", hit do momento no mundo funkstyle, isso é! E cá entre nós: o que é "caralho'? Você nunca ouviu? Quem não sabe o que é? Quem disse que é palavrão? A propósito, quando você xinga, você grita "pênis!!" ou "órgão reprodutor masculino!" ? Perdão àqueles que usam essa forma educada de expressão, mas estou certo que não corro o risco de acometer a nem 0,0001% da sociedade brasileira.
O Funk carioca é um produto nacional. Diferente de movimentos emocore, hardcore e cia. que são produtos da indústria cultural que alcançam espaço caca dia mais amplos em nosso país. Por analogia, se o funk estiga o sexo, o rock estiga a briga, um lado sadomasoquista humano que a mim não agrada; se o funk forma os famosos trenzinhos da sacanagem, o rock convida às rodinhas punk. O surpreendente é que grande parte dos que fazem comunidades em sites de relacionamento e criam posts em blogs para criticar o funk, nunca foram a um baile funk original. Aliás será que eles já vieram ao Rio? Estou convicto que apenas falam o que a mídia expõe. E nós sabemos que a mídia sustenta apenas o funk comercial que lhe é conveniente. É evidente que o funksinho que toca na novela das oito é um funk “pra vender” de quinta, que toca apenas pra impulsionar o comércio do cd da novela. O funk de verdade, os funkeiros de verdade, não entram no mainstream. Os funkeiros de verdade não passam de amadores que estigam o sexo e o tráfico de drogas. Os funkeiros de verdade não têm sequer gravadora, não podem mostrar seu talento, sabe porque? Porque narram na íntegra o que vivem em suas comunidades, narram a verdade, o real cotidiano de suas favelas, de pretos excluídos e brancas alucinógenas, de trabalhadores e cocaína, de fuzis empinados e crianças traficantes. Os funkeiros de verdade, faz tempo, foram tomados como marginais desde os arrastões de 1992 nas praias da zona sul, atribuídos aos aventureiros do mundo embrião do funk pela imprensa legitimadora.
Eu sou funkeiro, assumido, não fumo maconha, eu respeito a cultura brasileira e valorizo-na. Não pago 600,00 pra ver Madonna no Maracanã apesar de adorá-la, conhecer sua história e talento internacional no mundo pop. Eu não uso moda importada, tipo cabelos coloridos e/ou roupas metálicas: isso meus caros não é Brasil, não é América Latina, é fruto das mentes consumistas e de vez em quando burras dos nossos compatriotas de continente, os filhos dos EUA, a maior economia do mundo. E é por essa capacidade de vender o espírito do necessário e do "cultural" que se baseiam na Doutrina Trumam, américa aos americanos, aos Mc Donald´s, ao tênnis Nike, ao Oasis e Jonas Brother´s da vida. Eu no entanto, abro mão dessa cultura importada e invisto no estudo do movimento funk. Apesar de por vezes ter sido criticado, indagado e ironizado, transformei o Funk em objeto de estudo científico dentro da comunicação social, principalmente por dois motivos: pra eu poder argumentar plausivelmente em defesa do movimento e ir contra a mídia e grande parte da população para provar que o Funk Carioca, é sim uma manifestação da cultura popular brasileira, queira você ou não.

2 de fevereiro de 2009

De olho na nave NO LIMITE?


Há uns oito anos atrás eu conhecia um programa novo em âmbito nacional que iria instigar a cabeça de telespectadores e revolucionar a grade de programação da maior emissora de TV do Brasil, a gigante Rede Globo de Televisão. Um programa que iria lançar moda, criar debates, formar opiniões, movimentar fãs e seguidores.
O programa dos milhões de reais, da casa mais moderna e “clean” do Brasil conquistou o público e trouxe a tona perfis de brasileiros de todos os tipos: do homenzarrão que chora por uma boneca de plástico e ferro a um cow-boy caipirão, dos conquistadores às domésticas, personagens que punham em cheque a questão da convivência e da aceitação das diferenças sob o mesmo teto, e acima de tudo a relação interpessoal sob as lentes de dezenas de câmeras que registravam cada segundo, cada passo, o que os participantes estavam fazendo. A intimidade estava perdida e a privacidade totalmente banida da linda casa construída em Vargem Grande no Rio de Janeiro.
Sob o comando do ilustríssimo Pedro Bial e seu texto inteligente, perspicaz e intocável, o programa flui de maneira tranqüila, e o mix de provocações entre o apresentador e os integrantes da casa, deixa a disputa mais quente, afinal a voz do Bial é a voz do público.
Um programa de massa, das massas. Pobres, ricos, gays, negros, brancos, crianças, adolescentes, idosos, pais, mães, alunos e professores... Todos, expectadores ascíduos ou não, sempre estão com o BBB no top ten dos assuntos mais debatidos do dia-a-dia. Quem não queria participar daquelas grandes festas de sábado na casa mais espiada do país?
Entretanto como dizia cazuza: “o tempo não pára” e acho que as teorias dele firmam o ideal e tem sido a base sólida do BBB 9, a música de Raul Seixas, Metamorfose Ambulante, parece traçar o retrato do novo programa que invade as televisões depois da novela das oito, no horário nobre da Globo.
Dentre todas as mudanças, uma, sinceramente estimulou um ar de revolta e injustiça, O QUARTO BRANCO. Qual o intuito daquele quarto? Forçar a loucura? O BBB passou de jogo de tabuleiro, onde os participantes podem mover seus próprios peões, a rixa de galo, onde os próprios animais são obrigados a brigar pela aposta e pela ganância do bicho homem?
O BBB tem sua riqueza, ignorantes aqueles que acham que o Big Brother Brasil é programinha de gente burra, pobre de cabeça e espírito, gente sem cultura, sem ocupação. O BBB nos garante horas ilimitadas de análise ao incoerente pensamento humano, seja dos participantes ou dos que estão atrás das câmeras, mandando e desmandando no andamento do cotidiano da casa.
O BBB se descaracterizou. Não vejo mais imparcialidade. Não vejo nada além do espírito capitalista do homem, que se submete a tudo por um milhão de reais, pouco, tenho a certeza, diante dos cifrões agremiados pelos merchans e pelos comerciais entre um bloco e outro.
O anjo virou monstro, o voto pode ser aberto, aliás, com o quarto branco percebi que o público não vota mais. O que havia de mais brilhante no programa, o poder do povo, o poder de quem prove o programa, o poder da democracia e da interatividade fora deixado de lado. A voz do povo já não é mais a voz de Deus. Não existe mais um cronograma, as mentes que estão ali dentro começam a ser manipuladas, saturadas, as pessoas dali não são mais autenticas, não são mais elas mesmas. Conseguir ficar preso num quarto todo branco, exposto apenas ao tédio e a irritação visual da estagnação vai contra qualquer sanidade mental, vai contra qualquer possibilidade de justiça, afinal não foram todos que foram submetidos àquilo.
Entrar no BBB é certeza do imprevisível. Mas acho que o imprevisível devia ser apenas pros participantes e não para o público, que passivo, assiste às edições curtas feitas todos os dias. Basta-nos apenas acreditar bestializados no que se veicula e assistir perplexos, na espera de novas loucuras da nave BBB, nave sem rumo, sem destino, insólita e perdida no espaço.
Lado A, lado B, casa de vidro, o ser humano tem sido tratado como elefante de circo, manipulado, treinado a mentir, a simular, a fingir, a construir uma personalidade e um comportamento em troca de uma maça de um milhão de reais. Até onde vale a pena dar ibope à mentira? A essa injustiça psiquiátrica. E diferente do Banco Imobiliário ou o Jogo da vida, no BBB o tabuleiro não é de papelão e o dinheiro não é de mentirinha, não se podem ler as regras na caixa do jogo e tão quanto nas ilegais rixas de galo, as regras são feitas na hora e quem não agüentar vai embora, o galo que morrer sai da disputa, não de pode criar estratégias. A minha dúvida é? O programa No Limite voltou ao ar de cara nova?
Resta-nos apenas fazer nossas apostas. Eu, dessa vez, não vou apostar em nenhum galo e sim numa galinha, afinal de contas, pelo menos uma das participantes íntegras do programa, não se espantem, vão ser assediadas e perder seus princípios trocando sua nudez e seu pudor por uns 200 mil reais da Playboy.