3 de junho de 2009

PENSANDO O JORNALISMO CULTURAL

Trabalho feito por André Luiz Barros e apresentado ao prof Geraldo Condé - Sociologia da Arte do curso de especialização lato senso em Jornalismo Cultural da UERJ (1º SEM 2009)

As páginas de cultura dos jornais de hoje estão cada vez mais restritas a mera divulgação de releases de produtores artísticos e prensadas sob a barbárie do jornalismo diário, acabam reféns do factual. Considerável montante das reportagens e artigos voltados à cultura exclui parcela da população. Tão quanto na realidade, o jornalismo cultural está às avessas, dando suporte ao apertheid cultural do Brasil, pois segrega e deixa de fora de seus cadernos a cultura de massa, que prove a rotina dos guetos de nosso país.

No Brasil, a falta de especialização dos profissionais que trabalham com cultura, somada a rede informacional que apenas cria “leads” sem muita dimensão acerca de, filmes, peças e livros, mostra a ausência de alguns estudos voltados ao campo. Tomados como suporte de leitura, os jornais são usados como meios de busca de pesquisa e ultimamente como fonte de dicas de cultura e entretenimento.

Atualmente, tanto os jornais impresso quanto os virtuais lançaram mão da crítica literária, e pressionados pelo mercado capitalista, abdicam da identidade cultural e criam um convênio perigoso com suas fontes de informação.

Essa questão mostra-nos a importância de se discutir uma sociologia da arte, voltada a entender a recepção, a mediação, a produção e as próprias obras juntamente ao campo social ao qual estamos imersos.

No primeiro momento um breve histórico do início dos suplementos literários na década de 50 é exposto. Em seguida, inicia-se uma reflexão sobre o jornalismo cultural como um todo, problematizando a pressão sofrida pelas páginas de cultura frente a indústria cultural e a conseqüente exclusão da cultura de massa desses cadernos. Por fim, segue uma síntese analítica sobre a sociologia da arte e como os estudos específicos do tema podem qualificar os profissionais do setor, através do maior conhecimento sobre a mediação e a recepção da arte, do ponto de vista dos produtores, receptores e mediadores. Um debate sobre o modelo norte-americano de produção da notícia e a necessidade crítica dos jornalistas culturais também é lançado no decorrer do texto.



O gênesis dos suplementos literários:

A produção intelectual da década de 50 foi profundamente marcada pelo debate de idéias políticas. Com o pós-guerra e o funcionamento do regime democrático, houve uma maior liberdade de expressão, o que repercutiu num crescimento da criatividade e da análise psicológica. Os suplementos literários eram usados principalmente por intelectuais para divulgarem suas idéias e conceitos, que usavam esse meio por se ter um fluxo comunicacional bastante significativo. A década de 50 foi o auge dos suplementos, em contrapartida, um tempo de grande transição para a imprensa.

Os suplementos literários eram escritos por intelectuais da época que acabaram formaram redes de sociabilidade. Em determinado momento os jornais tiveram inclusive a participação de colaboradores do meio cultural, que escreviam análises críticas sobre a cultura com objetivo de divulgar a arte. Esses colaboradores eram tidos como intelectuais criativos e apesar de não serem remunerados, ganhavam reconhecimento social, afinal nessa década, ser escritor tinha grande valor e significação. Tamanha era a importância dada à cultura na época, que os jornais que não tinham suplementos literários, tinham espaços abertos dedicados ao tema.

Nessa década, no entanto, surgiu a figura do copidesque e a adoção de um jornalismo norte-americano, voltado à informação e a imparcialidade. Com o surgimento dos profissionais da imprensa, os colaboradores acabaram perdendo espaço. Saindo do mundo universitário com reconhecimento social da profissão e treinado aos dogmas da pirâmide invertida e do lead, os suplementos ganharam uma nova cara e uma nova dimensão.

Os suplementos não foram criados como espaços de conflitos, na verdade foram acolhedores de diversas linguagens das ciências humanas que não tinham aceitação nas universidades. O movimento de profissionalização dos jornalistas acabou priorizando a notícia em detrimento à opinião e os suplementos deixaram de ser espaços de críticas para espaço de lançamento de bens culturais, assim denominadas por Adorno. Os intelectuais e artistas perderam lugar para jornalistas especialistas que começaram então a produzir matérias e resenhas sobre a cultura.

Para Ledo Ivo, estudioso da história da imprensa, a crítica literária desapareceu dos jornais e o que existe atualmente é a literatura de resenhas, feita por jornalistas.



Refletindo o jornalismo cultural:

O atual jornalismo cultural praticado no mundo é bastante criticado, principalmente por quem conheceu o surgimento dos suplementos literários. Se de um lado está a necessidade da arte de buscar espaços de veiculação, do outro está o espaço propriamente dito regido por regras forazes de edições e de imparcialidade.

O jornalismo dedicado a cultura atualmente, sem generalizações, nada mais faz que comprar o que a indústria cultural vende. A cultura popular é explicitamente deixada de fora, bem como qualquer forma de arte adjeta dessa indústria dos bens culturais.

Criado para atender de maneira mais profunda a uma demanda segmentada, o jornalismo cultural cobre a arte e em seu novo viés, o entretenimento. O gosto, tão discutido por Nathalie Heinich, Pierre Bourdieu e outros estudiosos do âmbito cultural, na verdade foi deixado de lado, desertado das páginas “culturais” dos jornais.

O espaço utilizado como produção intelectual artística, se perde nas entrelinhas da arte burguesa, dita por letrada, e deixa à margem a cultura de massa e a própria cultura popular, que acaba sendo tratada pela mídia nos cadernos de polícia, vide o caso dos bailes funk e festivais de música eletrônica por exemplo.

A ausência de conhecimentos voltados à formação dos gostos é refletida dessa maneira, de forma clara e direta. Pierre Bourdieu diz que o habitus é constituído de um tipo material de esquema que está ligado a um sistema de distribuição desigual, baseados em três conceitos: hábito, campo e reprodução. No texto, “Gostos de classes e estilos de vida”, O sociólogo traça um panorama sobre o discurso dos gostos, providos segundo ele, principalmente por duas instituições, a família e a escola. Essa questão, no entanto, pouco é levada em consideração. Em sua lógica de urgência, o jornalismo de cultura não consegue cobrir a cultura como um todo, privilegia apenas parte dela.

O jornalista e pesquisador argentino Jorge Riviera define o jornalismo cultural como

[...] uma zona muito complexa e heterogênea de meios, gêneros e produtos que abordam com propósitos criativos, críticos, reprodutivos ou divulgatórios os terrenos das ‘belas arte’, as ‘belas letras’, as correntes do pensamento, as ciências sociais e humanas, a chamada cultura popular e muitos outros aspectos que têm a ver com a produção, circulação e consumo de bens simbólicos, sem importar sua origem ou destinação (RIVERA, 2003, p. 19).

O estudioso conceitua o jornalismo cultural e mostra que a temática desse segmento de jornalismo vai muito além da cobertura das chamadas sete artes.

O melhor jornalismo cultural é aquele que reflete lealmente as problemáticas globais de uma época, satisfaz demandas sociais concretas e interpreta dinamicamente a criatividade potencial do homem na sociedade (RIVEIRA, 2003, p. 11).

Atualmente, um debate nacional está engajando a sociedade civil em especial aos profissionais da imprensa: a obrigatoriedade do diploma universitário para exercício da profissão de jornalista. Na década de 50, os intelectuais podiam expressar suas opiniões com propriedade e liberdade para escrita, como então conseguir ser crítico de arte e seguir as regras de imparcialidade do jornalismo?

Para falar de arte, faz-se necessário conhecê-la. A sociologia da arte surge então como uma forma de estudar e entender como as representações, mediações e recepções da arte se colocam na sociedade e ainda serve como uma ferramenta que pode desbravar um olhar mais amplo sobre o cotidiano da cidade e suas formas de expressões artísticas, englobando a cultura letrada e a cultura popular, já que ambas se comunicam e representam uma estratificação social.

Os estudos da sociologia podem promover uma abertura da consciência humana para a criação de debates e dissertação de análises temáticas mais firmes e com conteúdo. A mera divulgação de filmes em cartaz nos cinemas, de lançamentos de best sellers não garante ao leitor nada além do que a oferta de novos produtos que podem ser comprados e alcançados através do capitalismo.

Em grande parte dos veículos de comunicação o que se vê é exatamente essa feira de produtos culturais, sem análise, sem uma explicação sobre a interação social entre a obra e o público, ou a obra e o autor. O que há é notícia. Boa parte dos cadernos culturais cria até um ranking de livros mais vendidos ou filmes mais assistidos, induzindo seu leitor não pela qualidade, mas pela vendagem ou tiragem de determinado bem cultural.



Eis que surge o grande desafio:

A socióloga Nathalie Heinich propôs no livro A Sociologia da Arte, um debate sobre a relação social entre arte e sociedade. Ela divide a história desses estudos em três gerações. A estética sociológica, que não tem empiria e de cunho filosófico; historia social da arte, contexto que evoluiu o binômio autor/obra e que tem um formato mais empírico e sociologia de pesquisa, que pensa a arte como sociedade, deixando de lado a visãcomo sociedade, deixando de lado a vis arteu o binomio o da arte como obra divina e adotando a idéia de arte como interação social.

Através da sociologia da arte conseguimos entender e avaliar o impacto da arte na sociedade e a interação entre os receptores e a obra, bem como os produtores e os mediadores, abrangendo todas as estratificações sociais além dos olhares sobre a arte e as técnicas envolvidas em sua confecção.

Heinich detém a idéia de uma sociologia pragmática que se preocupa com o momento, analisando-o, pensa os objetos sociais como máquinas e os seres humanos como atores sociais e não mais como sublimes. A autora defende a incorporação dos discursos que acompanham as obras pelos críticos, analistas, historiadores e pelo próprio público.

Pensar a arte como forma de interação social e o artista e o público como atores sociais pode promover aos jornalistas, tão quanto aos sociólogos, uma nova forma de reflexão, consagrando um novo olhar sobre a cultura como um todo. Especializando-se em arte e discorrendo nos cadernos de cultura com mais propriedade analítica, sem perder o inefável fado de seguir as regras impostas pelo jornalismo diário. “Voltando-se para uma direção mais antropológica e pragmática, estendida a compreensão das representações e não mais somente à explicação dos objetos ou dos fatos” (HEINICH, 2001, p.156).



Em suma:

O jornalismo cultural pede hoje, no limiar de qualquer ação, uma resenha conceitual sobre si mesmo, uma reformulação consciente. A cobertura jornalística na área de cultura precisa ser vista alem da dinâmica factual e direta, precisa ser questionada e limpa do espetáculo e dos delírios das assessorias de imprensas, com seus releases em formato de matérias pré-feitas a serem coladas e dispostas nos veículos de comunicação quase que na íntegra.

Através dos estudos aplicados da cultura, da sociologia e da própria comunicação social pode haver a promoção de uma nova linha de raciocínio, que construa um novo comportamento midiático frente à arte e ao próprio entretenimento, fugindo das pressões capitalistas dos produtores e seus patrocinadores, mantendo a ética profissional e as regras quase que impossivelmente burláveis e quebradas do modelo norte-americano.

A sociologia da arte pode trazer uma ruptura ao jornalismo cultural, deixando de lado as falhas praticadas atualmente, qualificando seus profissionais e abdicando da doutrina da noticiabilidade, extremamente segregadora, manipuladora e injusta.

Rio tomado por raves

Por André Luiz Barros, Jornal do Brasil (30/05/2009)

O mundo das festas rave e festivais eletrônicos conquistou um público cativo no Rio de Janeiro. Ainda sob diversas denúncias e preconceito, o estado se firma como o mais novo pólo do circuito eletrônico do mundo. Segundo a Secreta- ria Estadual de Segurança Pública, são promovidos em média oito eventos ao ar livre por mês durante todo o ano. Algumas chegam a reunir 15 mil pessoas.
Há pouco tempo, termos como line up, indoor ou privates eram pouco convencionais do vocabulário dos fluminenses. Hoje, o samba e o funk dividem espaço com os samplers da e-music e formam o trinômio do entretenimento no estado. Alguns eventos chegam a durar 12 horas sem parar.
Por causa de tamanhas proporções, ano passado uma lei estadual foi criada para regulamentar mais efetivamente o mundo das raves, que juntamente com o projeto Noite Legal acompanha a promoção das festas.
Segundo o balanço divulgado pela secretaria com exclusividade ao JB, em 2008 houveram 95 pedidos de licitação de festas de música eletrônica no estado do Rio. Só nesse ano 34 eventos já foram promovidos. O delegado Marco Castro, responsável pela direção do projeto explica o intuito da fiscalização.
– Buscamos fomentar a diversão carioca, exigindo uma regulamentação e coibindo os amadores – aponta Castro.
Para Franklin Costa, gerente de marketing e curador artístico da Chemical, festival promovido sábado passado no Riocentro, na Barra da Tijuca, o estado do Rio tem se tornado uma das capitais da música eletrônica.
– O crescimento do número de eventos é exponencial. O Rio tem um potencial absurdo pra atrair essas festas, primeiro pela paisagem e a alegria de seu povo, depois porque está contextualizado entre as grandes metrópoles do mundo – opina o curador.
Segundo ele a hospitalidade e o jeitinho carioca conquistaram os DJ's que divulgam internacionalmente as festas do Rio e costumam achar o público o mais animado do mundo.
O DJ Roger Lyra, que já tocou para 700 mil pessoas no Réveillon do Rio, na Barra da Tijuca, concorda.
– Quando os principais DJs internacionais vêm no Brasil, todos fazem questão de tocar no Rio. Alguns abrem mão de um cachê astronômico por algo mais palpável só pelo prazer de tocar aqui na cidade maravilhosa – afirma o DJ, que completa – Acho que o circuito eletro no Rio está em plena evolução. De alguns anos para cá, o mercado se profissionalizou bastante, e isso ajudou a dar credibilidade à cena local.

Limpeza

O DJ carioca Léo Janeiro ressalta a importância da legalidade das festas.
– Temos que redobrar os cuidados. Existem eventos não legalizados, e isso prejudica os organizadores que trabalham honestamente – alerta.
Thaisa Buriche tem 22 anos, é atriz, e frequenta o mundo das batidas eletrônicas há quatro anos.
– Curto desde as cores e formas do cenário, que é fora do habitual, às pessoas e à música envolvente – empolga-se a frequentadora.

"Prima" da torre Eiffel desaparece

Por André Luiz Barros, Jornal do Brasil (20/05/2009)

Sumiu do Engenho de Dentro uma rara memória da Exposição Universal de Paris de 1889, evento que comemorou o centenário da Revolução Francesa e inaugurou a Torre Eiffel e foi um dos marcos da indústria moderna. No local, serão construídos oito prédios e um total de 898 apartamentos, previstos para o fim de 2010.
Descobertas ao acaso em 1994, por um grupo de arquitetos durante o projeto de estruturação urbana do Méier, o que foi registrado em matéria do JB, as Oficinas de Trajano, como se tornaram popularmente conhecidas, eram um galpão de 220m de comprimento. Aparentemente, virou sucata ao perder terreno para interesses comerciais e imobilíarios.
Até poucos anos atrás, esse marco histórico da capital francesa podia ser visto por quem cruzasse o subúrbio do Engenho de Dentro (Zona Norte), na Avenida Dom Hélder Câmara. A grande peça ficava num terreno da Rede Ferroviária Federal (RFFSA) e foi usada como a fábrica de bondes do empresário Trajano de Medeiros. Depois da privatização da RFFSA, os terrenos foram alienados e o local acabou vendido ao supermercado Sendas, em 1999.
As estruturas metálicas chegaram a ser tombadas provisoriamente pela prefeitura do Rio em 1996, mas o ato revogado em 2005, pelo então prefeito César Maia. Segundo ele, as ferragens deveriam ser guardadas por sua antiguidade.
Só que não havia mais essa obrigação por parte dos donos. De acordo com a Secretaria Municipal de Urbanismo, após o destombamento, as restrições administrativas cessam. A demolição foi licenciada pela própria prefeitura.
As Casas Sendas foram procuradas pela reportagem do JB desde sexta-feira, por e-mail e telefone, mas, segundo sua assessoria de imprensa, o responsável pelo assunto não poderia atender à entrevista, por motivos de trabalho.
A diretora do Colégio Estadual Olinto da Gama Botelho, Elizabete Carvalho, trabalha há 30 anos na escola, que fazia limite com as construções metálicas, e foi testemunha viva do definhamento da área.
– O terreno ficou completamente abandonado. Havia segurança noturna, mas ela não impedia que pessoas pegassem materiais e ferro lá de dentro, não havia uma manutenção devida – comenta a diretora. – É uma pena ver parte da história mundial desaparecer.
Segundo a educadora, as paredes foram demolidas e as estruturas retiradas.
– Cheguei a falar do que aquelas estruturas se tratavam e até perguntei para onde elas iriam. Até hoje não sei que destino deram ao galpão – desabafa Elisabete.
Apesar do esvaziamento da área, nada foi construído pela rede de supermercados. Ninguém sabe ao certo aonde a estrutura foi parar.
Depois de ficar abandonado por quase 10 anos, o terreno novamente foi vendido. A compra foi feita pelo grupo Klabin Segall, que começou a construir um empreendimento imobiliário no final de 2007. O engenheiro responsável pelas obras da empresa, Marcelo Nicolau, garante que hoje não há mais nenhum material do gênero no terreno:
– As obras começaram no final de 2007. Hoje, posso garantir que não existe qualquer estrutura de ferro na área – afirma. Segundo a assessoria de imprensa da Klabin, as estruturas já haviam sido demolidas antes da aquisição.
O grande pavilhão metálico era uma das únicas peças da Exposição Universal de Paris ainda de pé em todo o mundo, além da Torre Eiffel. A estrutura faz parte de um pavilhão montado num terreno de quase 1 milhão de metros quadrados cortado pelo Rio Sena na capital francesa e foi utilizado para guardar materiais e hospedar operários do evento.

Exposição Universal de Paris sinalizou modernidade

O galpão construído em Paris e encontrado intacto reavivou a história da arte mundial escondida durante décadas na Zona Norte do Rio. Para historiadores, as estruturas metálicas eram peça fundamental na sinalização da modernidade. O Comissariado Brasileiro do ano da França lamenta o desmonte das estruturas.
Para a diretora da EBA (Escola de Belas Artes da UFRJ), historiadora e crítica de arte, Ângela Âncora da Luz, as Oficinas de Trajano, como foram batizadas aqui no Rio, eram parte da memória do início de uma nova fase artística.
– As estruturas pertenciam a uma exposição tida como uma sinalização da modernidade que se instaurava na época. Eram emblemáticas pela sua historicidade e pelo que elas representaram, os conceitos de liberdade e igualdade.
Segundo a diretora da EBA, a Exposição Universal iniciou um processo de revolução que despertou impulsos nacionalistas do início do século 20.
– Foi uma exposição marcante dentro da história da arte e da história cultural. Ela despertou aqui no Brasil um ideal de progresso – comenta Ângela.
O Comissariado Brasileiro do Ano da França também ficou penalizado pela falta de informação sobre as estruturas. Para Beatriz Leandro, integrante do comissariado, uma série de projetos poderia ser implantada no local, caso a peça ainda estivesse de pé.
– Certamente iríamos usar o local na zona norte para cobrir outro tipo de público – declara.

21 de maio de 2009

Ensaio semiológico: "A Igreja do Diabo", Machado de Assis:

Trabalho feito por André Luiz Barros e apresentado à profª Luiza Mariani - Semiologia do Jornalismo da Literatura do curso de especialização lato senso em Jornalismo Cultural da UERJ (1º SEM 2009)



Desde a criação humana se abateu sobre a Terra uma série de antônimos que acabaram repercutindo numa oferta de escolhas para os “moradores” do planeta. Dentre tantas antíteses, sem dúvidas, a do “bem” e d “mal”, é a maior delas. Afinal de contas duas figuras estiveram presentes na Terra, mitologicamente falando, e fizeram parte da história da criação do universo, são elas: Deus e o Diabo. Até hoje apesar de uma série de crises da instituição religiosa, Deus é associado ao bem, à criação, à vida, e o Diabo conectado ao mal, às avessas, à discórdia humana, à tentação e ao pecado. Em “A Igreja do Diabo” de Machado de Assis, o autor cria uma hipótese fictícia em que o Diabo, na condição de rei das trevas, funda sua própria igreja na tentativa de exterminar as religiões e os dogmas de Deus do universo. Os personagens humanamente verdadeiros nos trazem uma hipótese um tanto quanto surreal e comprova a máxima de que os seres humanos são eternos insatisfeitos e incoerentes a todo tempo.

O conto garante uma discussão moralista através das oposições entre Deus e religião, homem e razão, estiga a reflexão de como cada pessoa pode exercer a religiosidade sem medo de viver suas incertezas, ou mesmo de duvidar da obediência às regras de cristo e da bondade do homem. O Diabo questiona a hipocrisia religiosa e as práticas salvacionistas do perdão e do amor ao próximo.

Através de signos bastante evidentes, o enredo flui fazendo uma série de cognições, relacionando termos divinos e diabólicos. Num primeiro instante, é interessante notar, como o Diabo resolveu fazer para criar seu estabelecimento “sagrado”. Começou usando uma das próprias criações de Deus, a igreja, para se firmar no mundo. A igreja, por senso comum, é tomada e até chamada metaforicamente como a casa de Deus. Depois, em sua idéia inicial, propôs a invenção de uma missa, o grande culto ecumênico da igreja cristã e até a adoção do vinho e do pão no culto, o sangue e o corpo de cristo. Se a igreja conota a casa de Deus e o vinho e o pão, o corpo e o sangue de cristo, é possível notar que como em todos os momentos da história da Bíblia, mais uma vez no conto, o Diabo quer tomar o lugar de Deus, quer ser ele, quer substituí-lo e aloprá-lo.

Certo dessa idéia e com espírito de vingança, o Diabo sai das “províncias do abismo” para o “infinito azul”. O céu e o inferno nunca foram tão bem sintetizados e descritos por duas palavras. Machado caracteriza o inferno como abismo, ou seja, como profundo, grande, sem volta e o céu como infinito azul, da cor do manto de nossa senhora, da luz, da santidade.

Sob ameaças o Diabo entrou no espaço divino do céu, prometeu esvaziá-lo, porque sua nova agremiação iria “roubar” os fiéis que seguiam a doutrina do bem até então. Com ironias e um ar sagaz de deboche, o Diabo tinha nas mangas a idéia de que “as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão”.

A figura maligna apenas criou uma idéia racional: de que as virtudes, apenas eram virtudes porque as pessoas que as praticavam se limitavam a segui-las por questões dogmáticas. Essas virtudes eram qualidades humanas tão frágeis como fios de algodão, e bastava uma forcinha mínima para arrebentarem, ou seja, bastava a coragem dada por uma nova crença que desse liberdade ao homem para não mais praticá-las e sim subvertê-las. A igreja do Diabo seria essa coragem. As virtudes na ideologia cristã, deitada no evangelho de Jesus Cristo, são tomadas como a salvação, à bondade e a santidade. Desvirtuar-se das virtudes é desvirtuar-se da religião, é oprimir as regras da igreja, é ir contra aos conceitos impostos pela seita sagrada que escolheu para seguir, daí estabelece-se o limite e as barreiras, que acabam culminando com a prisão dos “fiéis” dentro de um conjunto de obstáculos que os impede de atuar fora ou contra esses limites. A proposta do Diabo era simples e barata. Oferecer aos “fiéis” a possibilidade de uma conversão que ia de encontro a esses limites e a essas virtudes, tidas por Machado como rainhas. Essa conversão iria trazer consigo as franjas de seda pura, as genuínas, instintivas e libertas dos pudores e dos votos de castidade, pobreza, obediência ou bondade, impostos pela igreja de Deus.

O Diabo continua, e usa dois termos para contrapor idéias: livro santo e bigode de pecado. O primeiro deles é fácil discernir a metáfora. O livro santo se remete a Deus, à Bíblia ou ao livro sagrado de uma religião. O bigode de pecado por sua vez, conota imediatamente ao ar perspicácia e reprimido da dúvida, da crueldade, da infâmia e injustiça, dos pecados que brandam da mente humana e vertem-se pra fora “manipulados” pelo ser do mal.

As figuras carnavalescas, cheias de mistério, pregam nesse conto um debate sobre a moral e o instinto. O certo e o errado. O pudor e a luxúria. Uma série de castidades e dogmas que cercam aqueles que sob uma ideologia religiosa promete seguir.

A religião historicamente gerou polêmicas por suas posições, muitas vezes avessas e divergentes das opiniões de seus fiéis. O próprio debate em si, sobre questões da igreja e de suposições de se seguir o caminho do mal, ou seja, do Diabo, já garante à insegurança e ao desespero emocional.

O Diabo, no conto, usa outro termo bastante interessante, quando ele esclarece a Deus o tom de sua idéia. “Vou a negócios mais altos.”, diz o maligno. É interessante notar como o Diabo trata sua igreja, como um negócio, como um empreendimento, como uma empresa. Não tão diferente como algumas agremiações religiosas vêem seus templos sagrados e seus seguidores nos dias de hoje. A igreja por si só é tomada como um bem. Padres não casam para não dividirem suas heranças, que são da Igreja, pastores evangélicos por sua vez, muitos deles, mas sem generalizações, pedem dinheiro alto para custear e financiar supostas vagas no céu, propondo a salvação através da economia. O Diabo no conto, não faz diferença, apenas deixa explícito verdadeiramente que a igreja é um negócio. A igreja de Deus ou a do Diabo são tomadas como negócios, que utilizam marketing para se difundir pelo mundo. O próprio termo propaganda, veio de propagare, dito por um papa italiano séculos atrás.

Deus cita ao Diabo um exemplo de bondade. O Diabo nega e deixa evidente sua eterna desconfiança. Os homens são capazes de ser bondosos e desconfiados. Características de Deus e do Diabo são claramente visíveis na humanidade, não porque sejam bons ou ruins, mas porque são humanos, tem sentimentos, vontades, ímpetos e instinto animal, por mais racional e desenvolvido que sejam seus cérebros.

Ao contrário do Diabo, em certo momento no conto, Deus se mostrou confiante e inabalável, o Diabo em nenhum momento se mostrou seguro ou confiante. Haja vista tamanha dissimulação ao revolver se encontrar com Deus e divulgar seu fardo.

Avisando ao mestre das luzes, o ser maligno que veio do inferno, desceu a Terra e começou a difundir sua ideologia. A promessa principal era a permissão do consumo por seus discípulos, das delícias da Terra, de todos os deleites íntimos. Mais uma vez, para convencer seus novos fiéis, tomou a posição de Deus, se assumindo como o verdadeiro pai, o gênio da natureza. Conquistou fãs não através das certezas como fez o próprio Deus, mas através da dúvida. Ele pairava com uma história a princípio absurda, que confundia as mentes e agremiava novos votos de confiança.

A base era autorizar a prática das virtudes legítimas e naturais, as “seda pura”, tolindo as virtudes aceitas, “de algodão”. Aboliu da Terra os sete pecados capitais. A inveja passou a ser a virtude principal e a “origem das prosperidades infinitas”. A fraude era “o braço esquerdo do homem”, “o braço direito era a força” e dedicava-lhe destaque aos canhotos, tidos em certos momentos pela igreja de Deus, em escrituras sagradas, como filhos do próprio demônio.

Das regras mais eloqüentes, a venalidade ganhada admirável poder. Coisas invendáveis, como a fé, os votos, a palavra, a opinião, foram autorizadas ao livre comércio. Até os órgãos foram autorizados à venda. E eis o debate inteligente, mas anticristo, se você pode vender tudo o que é seu, porque não vender bens abstratos como sentimentos ou coisas que você pode dar sem cobrar? O que é afinal a doação? Interessante notar o grau capitalista do pensamento do Diabo. “O dinheiro faz gozar” dizia Lyotard, estudioso da pós-modernidade. “Time is Money”. O dinheiro criado pelo homem seria o folheto da missa do Diabo?

O conto capcioso, mostra em cada momento, através das figuras mitológicas e metafóricas que remetem ao bem e ao mal como o homem sem limites, na base do livre-arbítrio perderiam sua moral. E como as religiões limitam o ímpeto humano. A cada instante, Machado de Assis, mostra na ficção, o que de fato é real à humanidade. A possibilidade de se fazer algo, até então errado, é vista com novos olhos. O ser humano busca o que é fácil, o que é egoísta.

Com o processo de globalização o império individualista se instaurou no mundo. A religião foi abatida, e como o filósofo Friederich Nietzche pulsou em seus textos, Deus está morto. Algumas agremiações cristãs acreditam na volta do Deus vivo, enquanto ele não vem à história do mundo nos leva para os devaneios do Diabo, nos liberta da amálgama entre a sanidade e a inconseqüência, nos oferecem um mundo Dioniso de novas visões, novas possibilidades que nos criam novas expectativas e anseios.

Em determinado instante o Diabo chega a tomar o amor ao próximo como obstáculo à nova religião e a única hipótese aceita era de se amar as damas alheias, proposição totalmente criticada e tolida da igreja de Deus.

Em contrapartida, se o Diabo trouxe consigo a liberdade para dar ao homem a liberdade para agir fora dos preceitos da igreja de Deus, ele impôs novos limites, criando uma espécie de mandamentos do Diabo. Não amarás, venderás seus votos e opiniões, serás egoísta, praticarás a luxúria, ou seja, se de um lado o maligno tirou certos limites, colocou-lhes a disposição outros, que tão quanto os de Deus, deveriam ser seguidos.

Os fiéis do Diabo começaram a praticar atos ilícitos dentro de sua igreja. Deus então questionou atuante: As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão? E então veio a resposta: É a eterna contradição humana.

Diante das teorias de Barthes e Greimas e através da mensagem passada pelo conto e pelos signos/grandezas presentes em todo seu desenrolar, disposto às intensidades e extensidades da interpretação pessoal, vemos que o homem busca a fé para discipliná-lo, para aproximá-lo com algum ser superior, para encontrar supostas verdades escondidas sobre o mundo e a vida, a humanidade busca a dogmas para segui-los e garantir um suposto bom lugar junto do divino, principalmente em tempos de guerra e violência, como vividos atualmente. O livre arbítrio foi aderido, entretanto, o ser humano não vive de limites, não gosta de obedecer a regras, é instintivo. Essa característica dá ao homem um sentimento intrínseco de dúvida, desespero e pecado, afinal ele deve seguir as regras daquilo que ele chama de conceitos divinos e sagrados. O homem, mais uma vez se mostra, um eterno insatisfeito, que se contradiz a todo instante, que erra, se arrepende, perdoa, e não sabe bem o que quer, afinal de contas no fundo ele é um animal, tem seu instinto, o que gradua esse instinto é exatamente aquilo que os diferencia dos outros bichos, a racionalidade.



14 de maio de 2009


Nossa Senhora de Fátima rogai por nós e nos abençôe. Amém.
No dia (13/05) em que comemoramos 121 anos da abolição da escravatura no Brasil, o paradebate.blogspot.com pergunta: será que somos realmente livres? O que está sendo feito com a cultura negra no Brasil?

2 de maio de 2009

15 anos sem Ayrton


Homenagem paradebate.blogspot.com ao grande ídolo nacional, o piloto de Fórmula 1, Ayton Senna.
(Brasil, 21/Março de 1960 – Itália, 1/Maio de 1994)

Uma flor na Redentor

Por André Luiz Barros, Jornal do Brasil (02/05/2009)

“O jardineiro conversava com as flores e elas se habituaram ao diálogo.”
O poeta Carlos Drummond de Andrade, autor desses versos, estava certo. Em Ipanema, moradores levaram a poesia a sério e adotaram uma alternativa para deixar as calçadas floridas e interagir com a natureza, criando um ar de primavera o ano todo. Uma rua em especial está ganhando aromas e cores por conta dessa iniciativa.
Há dois anos, a associação comercial batizada de Quadrilátero do Charme em Ipanema, formada por lojistas das redondezas das ruas Anibal de Mendonça, Joana Angélica e avenidas Vieira Souto e Epitácio Pessoa, fez o plantio de 2100 mudas de orquídeas em 350 árvores das proximidades de seus restaurantes e bares. Hoje, o principal ponto para vê-las é a menos badalada Rua Redentor.
O projeto teve adesão dos moradores. Hoje, os jardineiros são os próprios porteiros, que dividem o trabalho na recepção dos prédios com os cuidados dados às flores da rua. Com a chegada da primavera, em setembro, a Redentor deve ganhar um colorido especial e pode até ficar marcada pelas orquídeas, assim como a Rua Paissandu, no Flamengo, tornou-se famosa por suas monumentais palmeiras imperiais, que demarcavam o passeio da Família Real rumo à Praia do Flamengo.

Porteiros-jardineiros

Os porteiros João Santos e Joarez Távora, que trabalham na rua Redentor, acompanharam a colocação das plantas nos últimos anos. Algumas delas inclusive, eles mesmos que plantaram, a pedido de suas patroas.
– Nossas patroas costumam comprar as orquídeas para suas casas, e assim que as flores caem, elas nos pedem para colocá-las sobre as árvores – conta João.
Joarez também considera a idéia interessante e os cuidados com as flores já faz parte do seu cotidiano enquanto zelador.
– Eu mesmo coloco as plantas em cima das árvores. Uma vez por mês ponho um remédio para evitar pragas, e rego sempre – afirma o porteiro.
Segundo o biólogo José Ricardo Palmeiro, no entanto, o hábito de molhar as orquídeas demasiadamente pode prejudicar o desenvolvimento da planta.
– As orquídeas são flores da Mata Atlântica, que vivem da umidade do próprio meio ambiente. Regá-las frequentemente pode acabar encharcando a raiz do vegetal causando sua morte – diz Palmeiro.
O biólogo conta também que as orquídeas são plantas epífitas, ou seja, apenas utilizam outras árvores como suporte, não se nutrindo da seiva da árvore, como parasita.

Bem adaptadas

Além disso, elas se adaptam bem ao clima do Rio, e algumas vivem inclusive nas praias da cidade.
Ao contrário do que se pensa, essas flores são de fácil adaptação ao meio urbano, desde que não fiquem em exposição direta ao sol.
A floração ocorre durante todo o ano, dependendo da espécie. A moradora Sarah Cristina, 39 anos, mora há nove anos no bairro de Ipanema e, apesar de nunca ter plantado nenhuma orquídea na rua, é a favor da iniciativa.
– É demais caminhar pelas ruas e poder ir admirando lindas flores pelo caminho. O mais interessante é saber que meus vizinhos colaboram com a preservação da natureza, quem sabe não planto a minha essa semana - brinca a moradora.


25 de abril de 2009

Nesse mês o paradebate.blogspot.com completa um ano. E o site-projeto da aula de jornalismo digital que tive que construir para obtenção de grau na discplina na época de faculdade, hoje se transformou num hobby e num meio incrível de dividir minhas idéias e textos com meus amigos e internautas que curtem passear por aqui e ler textos diferentes que estigam o pensamento e a reflexão. Gostaria de agradecer a minha professora Larissa de Moraes pelo apoio e incentivo e a todos os visitantes do blog. Acreditem, ele é feito pra vocês. Se é possível viajar pela internet, alce voos maiores, viajando intelectualmente no paradebate. Críticas e sugestões são sempre vem vindas. Entre, debata, me bata se quiser, mas viaje.
paradebate.blogspot.com viagem inteligente na internet.

O grafite e a paisagem carioca

André Luiz Barros, Jornal do Brasil (publ. 26/04/2009)

O grafite já faz parte da paisagem carioca. Rostos, personali- dades, figuras fol- clóricas da cidade e a própria Zona Sul tornaram-se temas de uma exposição a céu aberto. Com spray, látex e criatividade, sua matéria-prima, esses artistas de rua transformaram o preconceito em reconhecimento. Hoje, até são convidados a pintar.
– O dono de uma oficina no Rio Comprido me chamou para pintar o portão. Ele entrou com o material e eu com a criatividade – conta Gustavo Figueiredo, morador do Leblon.
O paulista Tony de Marco é artista plástico e trabalha com grafite há cinco anos. Para ele, o contato com a rua é primordial.
– A rua foi uma maneira de eu conseguir bastante prática e experiência – comenta Tony.
Marginal, não
Engana-se quem considera o grafite uma arte marginal inventada nos guetos dos Estados Unidos. Ele surgiu muito antes, na terra do futurismo de Umberto Boccioni, a Itália, onde era usado pelos antigos romanos para divulgar suas leis e acontecimentos públicos. Assim que explodiu nos EUA, na década de 60, o grafite ganhou novos horizontes. Capturada pelo movimento negro em Nova Iorque, a arte urbana passou a dividir espaço com o breakdance e o rap, parte de uma ideologia, o hip-hop.
– No hip-hop, o grafite tomou novos rumos, foi além da cultura de rua, tornou-se uma linguagem que revolucionou o movimento artístico. Hoje, já está dentro das faculdades de belas artes – explica Alexandre Ferreira, mais conhecido como Afa, que dá aulas na Cufa (Central Única de Favelas). – As pessoas com quem trabalho não tiveram acesso à arte, que sempre foi privatizada. E se o povo não vai até a arte, a arte vai até ele.
– Uso cores vibrantes e uma imagem bastante figurativa. Costumo desenhar acerca de questões atuais da mídia – revela o professor de grafitagem.
Mas, afinal, quem arca com as despesas dos desenhos?
– Muitas vezes, os próprios artistas têm de bancar o material. Em troca, recebemos o olhar de nossos espectadores, que são aqueles que estão passando pela rua enquanto nossa arte estiver lá – comenta Afa.
Dos grafiteiros, no âmbito internacional, o mais famoso é Jean-Michel Basquiat, que, na década de 70, chamou a atenção da mídia nova-iorquina, principalmente pelas mensagens lúdicas que deixava nas paredes dos prédios abandonados na ilha de Manhattan. E se ídolos costumam fazer história, no caso da grafiteira Taíssa Camarotti, a Thati, a fã número um passou a ser a noiva.
Thati faz parte do grupo Facing the Gigant, formado há oito anos no Rio de Janeiro por cinco grafiteiros – quatro homens. E não é só no grupo que Thati é minoria feminina.
– As mulheres ainda são poucas no grafite – reconhece.
Segundo os grafiteiros, os espaços onde são feitas as grafitagens costumam estar abandonados. A subprefeitura da Zona Sul, no entanto, ressalta que, se tratando de lugares públicos, deve ser pedida uma autorização à prefeitura; em privados, ao proprietário.